A rivalidade entre Paris Saint-Germain e Olympique de Marseille, já uma das mais intensas do futebol francês, atingiu um novo marco de polêmica após o último Clássico. Pablo Longoria, o presidente olímpico, não mediu palavras ao deixar o Parc des Princes ou nas horas seguintes ao encontro.
Numa declaração chocante divulgada por vários meios de comunicação, ele disse: “Por que o árbitro principal jantou no restaurante do presidente do PSG pouco antes da noite do grande choque? »Esta frase, pronunciada com indignação palpável, visa diretamente Nasser Al-Khelaïfi, o presidente catariano do clube parisiense, e insinua uma possível influência na arbitragem da partida.

Segundo Longoria, esta proximidade entre o árbitro nomeado para o Le Classique e o líder do PSG põe em causa a justiça do futebol francês. Ele acusou a administração parisiense de ter manipulado as decisões da arbitragem através de relações nos bastidores, dizendo que a partida perdeu toda a imparcialidade necessária para um confronto desta escala. Esses comentários causaram imediatamente um terremoto na mídia. As redes sociais explodiram, os torcedores do Marselha choravam escândalo enquanto os do PSG denunciavam uma nova tentativa de vitimização por parte do OM.

Pouco depois destas declarações explosivas, Nasser Al-Khelaïfi reagiu com firmeza. Através de um comunicado de imprensa oficial do clube e em intervenções mediáticas, o presidente do PSG qualificou todas as acusações como “mentiras infundadas” e “pura calúnia destinada a mascarar as insuficiências desportivas do adversário”. Ele insistiu que os árbitros franceses sejam profissionais, independentes e sujeitos a protocolos rígidos da Federação Francesa de Futebol (FFF) e da Liga Profissional de Futebol (LFP).
Qualquer insinuação de corrupção ou influência oculta é, segundo ele, não só falsa como perigosa para a imagem do campeonato.

No entanto, a atitude de Al-Khelaïfi durante as conferências de imprensa seguintes não aliviou as tensões. O seu tom frio, as suas respostas concisas e certas insinuações – como as alusões à recorrente frustração do Marselha com os resultados – foram percebidas por parte do público como arrogantes ou provocativas. Em vez de apagar o fogo, estas reações alimentaram a controvérsia, alimentando debates sobre o suposto preconceito do PSG, clube dominante na Ligue 1 durante anos graças aos seus excepcionais recursos financeiros.
Este caso insere-se num contexto mais amplo de tensões entre os dois clubes. O Clássico nunca é igual a outro: cristaliza oposições históricas, sociais, culturais e agora económicas. O OM, clube popular por excelência, acusa regularmente o PSG de ser favorecido pela arbitragem, pelas autoridades ou mesmo pela mídia nacional. Longoria, desde que chegou à chefia do clube de Marselha, não hesitou em assumir a liderança nestes assuntos. As suas saídas mediáticas, muitas vezes apaixonadas, lembram as de alguns antecessores como Vincent Labrune ou Pape Diouf, mas com um tom mais direto e virulento.
Do lado parisiense, recordamos que o PSG está sujeito a um exame constante por parte das autoridades europeias (UEFA, autoridades anti-branqueamento de capitais) e que qualquer irregularidade seria rapidamente sancionada. Al-Khelaïfi, influente empresário e presidente da beIN Media, é uma figura central no futebol mundial. Suas relações nas esferas política e esportiva são conhecidas, mas nada jamais comprovou qualquer interferência nas arbitragens nacionais.
O jantar mencionado por Longoria – se realmente aconteceu – só poderia ser uma coincidência ou um evento social banal no microcosmo do futebol de alto nível, onde treinadores, árbitros e personalidades se cruzam frequentemente.
A Federação Francesa de Futebol e a LFP reagiram rapidamente à polêmica. Philippe Diallo, presidente da FFF, defendeu a integridade dos árbitros franceses, enfatizando os seus rigorosos sistemas de treino e monitorização (VAR, pontuação, avaliação). O comitê disciplinar poderá ser contatado se os comentários de Longoria forem considerados difamatórios ou prejudiciais à imagem do futebol. Além disso, o sindicato dos árbitros (SAFE) já anunciou no passado o seu desejo de apresentar queixa em casos semelhantes de acusações graves.
Esta nova salva na guerra OM-PSG chega num momento delicado para ambos os clubes. O PSG ainda domina a Ligue 1, mas procura recuperar a supremacia europeia após repetidos fracassos na Liga dos Campeões. O OM, por sua vez, alterna entre o bom e o menos bom, com uma equipa competitiva mas muitas vezes frustrada por decisões de arbitragem contestadas. O Clássico em questão viu escolhas discutidas: pênalti não apitado, cartão vermelho disputado, faltas não punidas… Tantos elementos que alimentam a suspeita quando somamos a alegação do jantar.
Para além do jogo em si, este caso levanta a questão da transparência no futebol francês. Como garantir a independência absoluta dos árbitros num campeonato onde um clube concentra tanto poder? Os observadores apelam a mais clareza: publicação de listas de árbitros com bastante antecedência, proibição estrita de contactos informais entre gestores e funcionários, reforço das investigações internas. Sem isso, cada decisão controversa corre o risco de reviver teorias da conspiração.
Por enquanto, a controvérsia continua a aumentar. Os torcedores do Marselha apoiam massivamente o seu presidente, vendo nele um defensor do clube enfrentando um Golias. Em Paris, minimizamos o caso, considerando-o como uma diversão clássica para o OM depois de uma derrota ou de um jogo disputado. Mas as palavras de Longoria impressionaram. Ao acusar abertamente o presidente do PSG de ter influenciado o árbitro através de um jantar, ele ultrapassou a linha vermelha para muitos.
Nasser Al-Khelaïfi, ao negá-lo friamente, espera encerrar o capítulo. No entanto, as suas respostas comedidas mas distantes apenas alimentaram a especulação. O futebol francês, já sob tensão com debates sobre governação, direitos televisivos e competitividade, encontra-se mais uma vez dividido por esta rivalidade histórica.
Resta saber se esta saída de Longoria terá graves consequências disciplinares, como tem acontecido noutros casos recentes envolvendo executivos. Uma coisa é certa: o Clássico nunca dura apenas 90 minutos em campo. Continua nas conferências de imprensa, nos bastidores e nas declarações chocantes que fazem vibrar o futebol francês.